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Pesto de nêspera

Março 25, 2022

Pesto de nêspera com hortelã, manjericão e castanha-do-pará

O ano virou, comemos muita manga, choveu dias sem parar, passou o Carnaval, as goiabas caíram, o sol entrou em Áries, o frio do outono já está quase aí. Caminhamos metade de um semestre e só agora sinto que realmente 2022 começou por aqui – e nada tem a ver com procrastinação de início de ano.

Nos mudamos em janeiro e levou dois longos meses para que a casa, a vida e o quintal novos entrassem em sintonia. Doeu, confesso, deixar para trás minha horta, as frutíferas e todo um jardim já formado que cultivei por 5 anos. É como se, em pleno verão, o inverno habitasse em mim. Eu não tinha dimensionado a falta que me faria a rotina de colocar as mãos na terra, catar os limões no chão ou até mesmo as lagartas na capuchinha e, claro, me esquecer pelos canteiros, colhendo ervas e verduras. Cultivar faz parte de mim e esse pedacinho ficou adormecido por um tempo.

A sorte é que conseguimos uma casa nova com um quintal enorme, riacho no fundo e algumas frutíferas. Temos jaca, romã, manga, goiaba, acerola, pitanga, graviola, banana, mexerica, carambola e até jabuticaba. E tem também uma área verde generosa para receber a nova horta, que, já, já vai começar. Há um mês voltei a semear, reformei todos os vasos que trouxe comigo, adubei as plantas que também sofreram com a mudança. Isso tudo já me trouxe um respiro à loucura que é colocar a carga de 7 caminhões de mudança no lugar!  Nesse meio tempo, também nos alegramos com uma dúzia de graviolas doces, frutadas e azedinhas, que viraram aquele creme com coco que acompanha tão bem o bolo-brownie de cacau. Mas foi só neste fim de semana que me senti inteira de novo ao cumprir o ritual que tanto me faz bem: vestir o avental, apanhar a cesta e a tesoura e sair para o quintal para a primeira colheita oficial da casa!

 


Já temos hortelã se esparramando do vaso, taiobas sem fim, shissô, manjericão, alecrim, bastante pimenta-de-bode e biquinho. O pé de curry está lindo como nunca, o de limão-kaffir ganhou galhos e folhas novas de um perfume intenso e até o limão-cravo que plantei quando cheguei aqui já deu frutos. Mas o que está mesmo caindo aos montes são acerolas e nêsperas. Primeira vez que colho nêsperas, que muita gente conhece como ameixa ou ameixa amarela, e fiquei com vontade de cozinhar com essa frutinha chinesa que se adaptou bem nas terras tropicais e que tem a cara de quintal de vó. A primeira ideia foi fazer um curry. O aroma floral da nêspera combinaria bem com um curry apimentado de camarão à base de leite de coco. Depois, imaginei testá-la numa conserva indiana com pimentão e semente de coentro que geralmente faço com cajá-manga verde.

Fui para a cozinha e, ao olhar a cesta da colheita, vi um punhado generoso de folhas e flores de manjericão-canela. Quando o manjericão começa a florir, a planta, que antes estava produzindo folhas bem aromáticas, passa a se concentrar nas flores, para que atraiam os polinizadores e ela possa gerar sementes. Por um lado, as folhas ficam levemente menos aromáticas; por outro, as abelhas fazem a festa. Então, como tenho dois pés dele, corto as flores de um e deixo o outro para o banquete das abelhas. Por isso, tinha uma boa quantidade das flores do manjericão-canela e foi justamente o aroma delas ali na cesta que me despertou a ideia de juntar nêspera, hortelã e manjericão para fazer um pesto. E ficou tão, tão gostoso que vai virar uma daquelas receitas da casa que a gente repete sempre.

Para mim, o sabor da nêspera lembra uma mistura bem boa de ameixa e damasco, com um bom toque cítrico e aroma floral. Quando está madura, ainda fica bem doce. Queria que essa combinação boa de dulçor, acidez e floral se mantivesse presente no sabor final do pesto. Por isso, usei castanha-do-pará, que não tem sabor muito forte, e a combinação de hortelã, que realça o frescor, e folhas e flores de manjericão-canela, que combinam com a doçura da nêspera. Se não tiver manjericão-canela, pode usar o manjericão verde mais comum mesmo que também vai ficar ótimo.

Só um adendo: eu chamo esse tipo de molho de pesto porque leva ervas, azeite, alguma castanha e bato no pilão, mas não uso queijo, como é tradicional na Itália. Aliás, nesta receita um queijo seria forte demais e acabaria roubando a cena e a delicadeza da nêspera.

pesto de nêsperas

Eu prefiro, sempre que possível, fazer o pesto num pilão de pedra. Realmente faz diferença no sabor e na textura. Socar no pilão gera fricção e calor, o que ajuda a liberar os óleos essenciais das ervas e da castanha e também quebra melhor as moléculas de todos os ingredientes. O resultado é um sabor mais rico e encorpado. E fora que a gente consegue ainda ajustar melhor a textura de que gostamos mais: nesse, adorei deixar uns pedacinhos de nêspera mais aparentes. Se, porém, não tiver o pilão, tudo bem: pode bater no mixer ou no processador.

Comemos o pesto (de uma vez só de tão bom que ficou) com tortillas de mandioca e camarões com tamarindo, nêsperas e pimentas da casa. Como o pesto é bem fresco, combina com salada de folhas, vegetais crus, cozidos ou assados, camarão, peixes brancos. Acho que ficaria bom até numa tábua de queijos e frios. De qualquer forma, é um jeito delicioso de aproveitar bem a colheita e dar às nêsperas um lugar de destaque na mesa, muito além da geleia.

Camarâo com nêsperas, pesto de nêsperas e tortilhas de mandioca

 

Pesto de nêspera

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Um molho fresco e delicioso de nêspera com manjericão e hortelã
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Ingredients Method Notes

Ingredients
  

  • 10 castanhas-do-pará
  • 1/3 de xícara de folhas e flores de manjericão-canela ou de folhas de manjericão verde
  • 1/3 de xícara de folhas de hortelã
  • 15 nêsperas sem casca e sem sementes e cortadas em quatro
  • 1/3 de xícara de azeite extravirgem
  • 1 colher (café) de sal
  • flor de sal para salpicar por cima (opcional)

Method
 

  1. Num pilão médio, coloque uma parte das castanhas-do-pará e uma pitada de sal. Soque, com movimentos circulares e laterais, levando as castanhas para deslizar pelas paredes do pilão, em vez de apenas socar de cima para baixo. Isso evita que elas pulem para fora do pilão.
  2. Quando as castanhas já estiverem bem quebradas, junte um punhado das ervas (a hortelã, as folhas e, se estiver usando, as flores de manjericão). Faça o mesmo movimento com o socador, para que as ervas se incorporem à castanha, gerando uma pasta.
  3. Acrescente mais um punhado das castanhas, soque novamente. Repita o processo, com o restante das ervas.
  4. Adicione as nêsperas e soque-as para que se incorporem ao pesto. Se quiser, pode deixar alguns pedaços mais aparentes.
  5. Junte o azeite, misture bem, tempere com sal. Prove e ajuste o tempero.
  6. Para finalizar, gosto de salpicar um pouco de flor de sal, mas é totalmente opcional.
  7. Consuma em seguida ou guarde na geladeira num pote bem fechado.

Notes

Observação: se quiser, pode incluir um dente pequeno de alho. Aí comece socando o alho com o sal até virar uma pastinha e, então, passe para as castanhas, seguindo o passo a passo da receita.
Se for fazer o pesto no mixer ou no processador, basta juntar todos os ingredientes na ordem acima e processar.

 

 

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